Banco avalia que estratégia do Tesouro americano melhora a liquidez no curto prazo, mas não resolve o crescente endividamento e a necessidade de encontrar compradores para o volume recorde de títulos.
A decisão do Tesouro dos Estados Unidos de ampliar as recompras de títulos públicos pode proporcionar alívio temporário aos mercados, mas não resolve o principal problema enfrentado pelo governo americano: o crescimento do endividamento. A avaliação é de James Sullivan, corresponsável pela pesquisa fundamentalista global do JPMorgan.
Segundo Sullivan, o Tesouro está recomprando títulos de vencimentos mais longos enquanto aumenta a emissão de papéis de curto prazo. Na prática, a estratégia funciona como uma troca de dívida de prazo maior por obrigações de prazo menor.
O executivo comparou a operação a “pagar sua hipoteca com o cartão de crédito”, destacando que a estratégia pode funcionar durante algum tempo, mas não elimina a dívida existente.
O Departamento do Tesouro, comandado pelo secretário Scott Bessent, anunciou na quarta-feira (19) que pretende pelo menos dobrar o tamanho das operações de recompra destinadas a apoiar a liquidez. O limite por operação passará de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões em títulos com vencimentos entre 10 e 30 anos. O programa ampliado está previsto para começar em 9 de setembro e seguir até 4 de novembro.
O anúncio provocou forte reação inicial nos mercados. O rendimento dos Treasuries de 30 anos caiu nove pontos-base, para 5,196%, enquanto o título de dez anos recuou 5,7 pontos-base, para 4,647%.
O movimento também favoreceu ativos de risco, com enfraquecimento do dólar e alta de ações, ouro e criptomoedas.
Na quinta-feira (20), entretanto, parte significativa do movimento foi revertida. O rendimento do Treasury de 30 anos subiu para 5,251%, enquanto o de dez anos avançou para 4,704%.
As bolsas americanas também recuaram. O Dow Jones caiu 1,32%, o S&P 500 perdeu 0,87% e o Nasdaq recuou 1%.
Para Sullivan, o problema estrutural está no enorme volume de dívida que precisa ser absorvido pelos investidores.
O JPMorgan estima aproximadamente US$ 40 trilhões em dívida do governo americano, enquanto o endividamento dos governos de países desenvolvidos chega a cerca de US$ 76 trilhões.
A crescente emissão de títulos significa que os governos precisam atrair compradores suficientes. Caso a oferta aumente mais rapidamente que a demanda, os emissores podem precisar oferecer retornos maiores para convencer os investidores a comprar os papéis.
Outro ponto de atenção é a participação dos investidores estrangeiros no mercado de Treasuries. Segundo os dados citados pelo banco, as posições da China em títulos do Tesouro americano estão no menor nível em 18 anos, enquanto os títulos americanos mantidos sob custódia para governos estrangeiros estão no menor patamar em 14 anos.
Em julho, a compra líquida estrangeira de Treasuries de longo prazo foi de apenas US$ 6,8 bilhões, o menor ritmo desde fevereiro. Ao mesmo tempo, as posições oficiais estrangeiras em T-bills caíram US$ 35,6 bilhões.
A expansão dos investimentos em inteligência artificial adiciona outro elemento à disputa por capital.
De acordo com Sullivan, as principais empresas de IA emitiram aproximadamente US$ 200 bilhões em dívida neste ano, crescimento de 80% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Os investimentos em data centers e infraestrutura de IA aumentam a necessidade de financiamento corporativo justamente em um momento em que os governos também precisam captar volumes elevados no mercado.
Nesse cenário, os investidores precisam decidir como distribuir capital entre diferentes classes de ativos.
O JPMorgan aponta que os retornos oferecidos pelos títulos já superam as projeções de lucro do S&P 500, tornando mais complexa a dinâmica entre renda fixa e renda variável.
A avaliação do banco é que a recompra de Treasuries pode ajudar a administrar as condições de financiamento no curto prazo, mas não elimina a questão fundamental: como financiar uma dívida cada vez maior em um ambiente de oferta crescente de títulos e demanda potencialmente mais limitada.
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