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28/09/2026

Queda do consumo surpreende e aumenta pressão por ajuste fiscal, alerta FGV Ibre

Setembro 02, 2026
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PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre, mas retração do consumo das famílias e dependência do agronegócio revelam sinais de desaceleração e desafios para o crescimento sustentável.

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, resultado ligeiramente acima da expectativa do mercado, que projetava avanço de 0,4%. Apesar do desempenho positivo, a composição do crescimento revelou sinais de enfraquecimento de importantes motores da economia.

Para Juliana Trece, coordenadora de Contas Nacionais do FGV Ibre, a retração do consumo das famílias foi uma das principais surpresas do período e reforça a percepção de desaceleração da atividade econômica.

O cenário combina juros elevados, famílias endividadas e condições de crédito restritivas. Mesmo com um mercado de trabalho ainda aquecido e medidas que poderiam estimular o consumo, como o Desenrola 2.0, a demanda das famílias perdeu força.

Consumo das famílias preocupa

A queda do consumo chama atenção porque as famílias representam mais de 60% do PIB brasileiro. Segundo a avaliação do FGV Ibre, a perda de dinamismo ocorre justamente em um momento em que os juros elevados dificultam o acesso ao crédito e aumentam o custo das dívidas.

O enfraquecimento também aparece em setores diretamente relacionados ao orçamento das famílias.

O comércio e outros serviços, que incluem atividades como bares e restaurantes, registraram variação de 0% no segundo trimestre.

O setor de serviços conseguiu apresentar crescimento, mas sustentado principalmente por segmentos menos sensíveis às condições financeiras, como tecnologia da informação e comunicação.

Agropecuária continua sustentando a economia

Outro ponto de atenção está na composição do crescimento do PIB.

A agropecuária e a indústria extrativa continuam desempenhando papel importante na sustentação da atividade econômica brasileira. Entretanto, essa concentração também aumenta a vulnerabilidade do país a fatores externos e climáticos.

Mudanças nas condições internacionais ou problemas relacionados ao clima podem reduzir o desempenho desses setores e, consequentemente, afetar o crescimento do PIB.

A preocupação aumenta porque outros segmentos da economia estão mais fragilizados pelos juros elevados e pelo crédito restritivo, o que limita a capacidade de compensar uma eventual perda de força do agronegócio.

Apesar dos riscos, a avaliação do FGV Ibre não aponta para uma recessão. A expectativa é de que a economia encontre estabilidade nos próximos trimestres, com crescimento próximo de zero.

Juros altos e contas públicas entram no centro do debate

Para Juliana Trece, o Brasil enfrenta um ciclo que precisa ser interrompido: estímulos fiscais impulsionam temporariamente o consumo, mas também podem aumentar as pressões inflacionárias e dificultar o trabalho do Banco Central.

Quando a demanda cresce sem que haja expansão correspondente da capacidade produtiva, a pressão sobre os preços aumenta. Como resposta, o Banco Central tende a manter os juros elevados ou até aumentar a taxa básica.

O resultado é um ciclo de estímulo, inflação, juros altos e desaceleração econômica.

Nesse contexto, o ajuste das contas públicas passa a ser considerado fundamental para melhorar o ambiente de investimentos.

Investimento privado é peça-chave

Com o nível de endividamento do governo elevado, a capacidade de ampliar os investimentos públicos fica limitada. Ao mesmo tempo, investidores nacionais e estrangeiros tendem a adotar maior cautela quando percebem deterioração fiscal.

A solução apontada pelo FGV Ibre passa por criar condições para que o capital privado volte a investir de forma mais consistente.

A expectativa é que um ambiente fiscal mais equilibrado reduza riscos, aumente a confiança e permita ampliar a capacidade produtiva sem provocar novas pressões inflacionárias.

Ano eleitoral dificulta ajuste imediato

O cenário político também representa um obstáculo.

Por se tratar de um ano eleitoral, grandes medidas de consolidação fiscal são consideradas pouco prováveis no curto prazo. A avaliação, porém, é de que o ajuste das contas públicas será uma das principais prioridades do próximo governo.

Independentemente de quem vencer a eleição, a agenda fiscal deverá ganhar importância a partir do primeiro ano do novo mandato.

Embora um ajuste fiscal possa provocar efeitos negativos no consumo no curto prazo, a expectativa é que, no médio e longo prazo, uma trajetória fiscal mais sustentável contribua para recuperar a confiança, estimular investimentos e criar condições para uma redução mais consistente dos juros.

O que está no radar dos investidores?

O resultado do PIB reforça a necessidade de acompanhar três pontos importantes nos próximos meses:

  1. Evolução do consumo das famílias;
  2. Trajetória das contas públicas e do ajuste fiscal;
  3. Comportamento dos juros e dos investimentos privados.

O crescimento de 0,5% no segundo trimestre mostra que a economia brasileira ainda avança, mas a composição desse resultado indica que crescer de forma sustentável continua sendo um desafio.

Com o consumo perdendo força e o agronegócio assumindo papel relevante na expansão do PIB, a capacidade do próximo governo de equilibrar as contas públicas e criar um ambiente favorável aos investimentos poderá ser determinante para definir o ritmo da economia brasileira nos próximos anos.


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