Depósitos de argila de adsorção iônica podem dar ao Brasil uma posição estratégica na disputa global por terras raras e reduzir a dependência da China.
O Brasil pode assumir um papel estratégico na corrida global por terras raras, impulsionado por um tipo específico de depósito mineral que pode facilitar a extração e o processamento desses elementos.
A avaliação é de Ryan Castilloux, fundador e diretor-presidente da consultoria canadense Adamas Intelligence, especializada nos mercados de terras raras e ímãs.
Segundo o executivo, o mercado global caminha para uma divisão cada vez mais clara entre uma cadeia produtiva liderada pela China e outra formada pelo restante do mundo, que busca reduzir sua dependência do país asiático.
A China passou décadas desenvolvendo tecnologias de mineração, separação e processamento de terras raras e atualmente ocupa posição dominante na cadeia global.
Esses minerais são utilizados na fabricação de uma ampla variedade de produtos, incluindo smartphones, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos de defesa e sistemas de robótica.
A pandemia de Covid-19 expôs a vulnerabilidade das cadeias globais de suprimentos e levou diversos países a acelerar investimentos para criar fontes alternativas de minerais críticos.
O movimento ganhou força principalmente nos Estados Unidos e em outras economias ocidentais interessadas em diminuir a dependência de fornecedores chineses.
Um dos principais pontos de interesse está nos chamados depósitos de argila de adsorção iônica.
Esse tipo de depósito é considerado estratégico porque pode apresentar uma barreira operacional menor para a extração e o processamento de determinados elementos de terras raras.
Na Ásia, depósitos desse tipo são encontrados principalmente em países como China, Mianmar e Laos.
Fora da Ásia, o Brasil aparece como um dos principais potenciais polos globais desse recurso.
A vantagem é especialmente relevante para as chamadas terras raras pesadas, utilizadas em pequenas quantidades para permitir que determinados ímãs mantenham seu desempenho em condições de alta temperatura.
O acesso às terras raras pesadas é considerado um dos principais gargalos para a construção de uma cadeia de fornecimento alternativa à chinesa.
Para Castilloux, o Brasil reúne características que podem permitir uma expansão relativamente rápida do setor.
Projetos de exploração de depósitos de argila de adsorção iônica podem ter horizontes de desenvolvimento de aproximadamente três a quatro anos, segundo a avaliação apresentada pelo executivo.
Os investimentos iniciais, embora elevados, também podem ser inferiores aos necessários para projetos de mineração mais complexos. Atualmente, a exploração de um depósito desse tipo pode exigir investimentos de algumas centenas de milhões de dólares.
Apesar do potencial brasileiro, produzir terras raras em escala comercial é apenas uma etapa da cadeia.
Um dos principais desafios está no processamento dos minerais. Depois que os óxidos são obtidos, é necessário transformá-los nos materiais utilizados na produção de ligas magnéticas e, posteriormente, na fabricação dos ímãs.
Atualmente, a China é o único país que domina de forma integrada toda essa cadeia produtiva.
Por isso, a construção de uma alternativa fora do território chinês dependerá não apenas da abertura de novas minas, mas também do desenvolvimento de instalações de processamento, produção de metais, fabricação de ligas e produção de ímãs.
O movimento de diversificação das cadeias de suprimentos ganhou força nos últimos anos.
Nos Estados Unidos, o governo vem anunciando investimentos para ampliar a produção doméstica de minerais críticos e reduzir vulnerabilidades estratégicas. Em agosto, o presidente Donald Trump anunciou US$ 2 bilhões em investimentos em novos projetos de terras raras.
A disputa envolve interesses econômicos e estratégicos, já que esses minerais são fundamentais para setores considerados essenciais para a transição energética, tecnologia avançada e defesa.
Na avaliação de Castilloux, o Brasil poderia avançar significativamente na cadeia de terras raras ao longo da próxima década, caso consiga combinar políticas públicas, investimentos e um ambiente regulatório adequado.
O objetivo seria passar da simples exploração mineral para o desenvolvimento de capacidade de processamento e, posteriormente, de uma indústria nacional de ímãs.
“Em um horizonte de tempo grande o suficiente, de 10 anos até 2035”, o Brasil poderia desenvolver uma cadeia de valor mais completa, segundo a avaliação do executivo.
O potencial coloca o país em uma posição estratégica em um mercado que tende a ganhar importância à medida que Estados Unidos, Europa e outras economias buscam reduzir a dependência da China.
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