Selic elevada e cinco anos consecutivos de resgates pressionam a indústria de fundos multimercados, enquanto grandes bancos ampliam a contratação de gestores e equipes especializadas.
A combinação de juros elevados, concorrência da renda fixa e saídas consecutivas de recursos está provocando uma transformação na indústria brasileira de fundos multimercados.
Com a Selic acima de 10% pelo quarto ano consecutivo, gestores independentes enfrentam dificuldades para atrair investidores, enquanto grandes bancos aproveitam o momento para incorporar equipes e estruturas especializadas.
Um dos casos mais emblemáticos é o de Armínio Fraga, fundador da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, que anunciou a transferência da gestão de seus fundos para o Bradesco.
Segundo Fraga, o ambiente atual é especialmente difícil para os multimercados, diante dos juros elevados e da concorrência de produtos que oferecem retornos atrativos e vantagens tributárias.
A indústria de multimercados caminha para o quinto ano consecutivo de saída líquida de recursos. Desde 2022, os resgates acumulam aproximadamente R$ 672 bilhões, segundo dados da Anbima.
O patrimônio das sete maiores gestoras independentes em estratégias macro locais caiu quase pela metade desde 2022, chegando a cerca de R$ 89 bilhões.
O número de fundos macro também recuou. Eram aproximadamente 20% mais fundos em 2021 do que os 743 registrados em julho deste ano.
Enquanto isso, as grandes gestoras ligadas aos bancos conseguiram ampliar sua participação. O patrimônio dos fundos macro dessas instituições quase dobrou desde 2019, alcançando aproximadamente R$ 542 bilhões em junho.
O movimento tem levado profissionais conhecidos do mercado para instituições financeiras de grande porte.
O Itaú, por exemplo, contratou Luiz Eduardo Portella, um dos fundadores da Novus Capital, para estruturar uma operação de investimentos em multimercados.
A instituição também incorporou a Solana Capital, especializada em renda variável, e trouxe Eduardo Zilberman, ex-SPX Capital, para liderar sua área de pesquisa econômica.
A estratégia permite que gestores mantenham maior autonomia na condução dos investimentos, enquanto aproveitam a estrutura de tecnologia, compliance, distribuição e back office dos grandes bancos.
O principal desafio para os multimercados está na capacidade da renda fixa de oferecer retornos elevados com menor complexidade e, em alguns casos, benefícios tributários.
Títulos corporativos isentos de Imposto de Renda também ganharam espaço entre investidores institucionais e pessoas físicas.
Além disso, produtos de baixo custo, como ETFs, aumentaram a competição por recursos.
Com a expectativa de que o Banco Central mantenha os juros básicos acima de 13% pelo menos até o final de 2027, a pressão sobre os fundos multimercados pode continuar.
Para Armínio Fraga, o problema vai além de uma dificuldade temporária do mercado.
O gestor avalia que os juros elevados estão relacionados a uma questão fiscal mais profunda, já que o governo precisa captar grandes volumes de recursos no mercado de dívida para financiar o déficit público.
Nesse ambiente, os multimercados independentes enfrentam uma combinação difícil: precisam entregar retornos competitivos ao mesmo tempo em que disputam recursos com produtos de renda fixa que oferecem remuneração elevada e, em determinados casos, benefícios fiscais.
O resultado é uma indústria em transformação, com gestoras independentes perdendo espaço e grandes bancos se tornando cada vez mais importantes na gestão de recursos e na contratação de profissionais especializados.
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