Taxas dos títulos públicos recuam com a aproximação das eleições, mas gestores avaliam que o movimento reflete principalmente a redução do prêmio de risco, e não uma melhora estrutural da economia.
A proximidade das eleições de 2026 já começa a produzir efeitos relevantes no mercado de juros brasileiro. As taxas dos títulos públicos recuaram nesta semana e atingiram os menores níveis desde maio.
Apesar do movimento positivo, gestores da Tivio Capital avaliam que a queda não representa necessariamente uma melhora dos fundamentos econômicos. Na avaliação da gestora, parte relevante do ajuste ocorreu pela redução do prêmio de risco associado ao cenário eleitoral.
Segundo Isabela Fukase, gestora de renda fixa da Tivio, o fechamento das taxas ocorreu principalmente porque o prêmio de risco diminuiu, e não devido a uma mudança estrutural da economia.
O prêmio de risco eleitoral estava elevado em meados de agosto, mas começou a diminuir conforme pesquisas passaram a indicar uma disputa mais equilibrada entre os principais candidatos.
A Tivio havia se posicionado para aproveitar esse movimento e, com a melhora dos preços dos títulos, passou a reduzir parte das posições.
Para Huang Seen, head de renda fixa da gestora, o mercado ainda não incorporou completamente uma eventual alternância de poder. No entanto, os níveis atuais já oferecem uma relação menos atrativa entre risco e retorno.
Com isso, a estratégia da casa passou a ser mais cautelosa diante da possibilidade de novas quedas das taxas.
A Tivio mantém exposição principalmente em títulos prefixados, buscando aproveitar uma possível redução da inflação implícita e a diferença entre as taxas prefixadas e os juros reais dos títulos atrelados ao IPCA.
No curtíssimo prazo, porém, a gestora está mais neutra devido à possibilidade de uma nova pressão inflacionária nos próximos meses.
Entre os fatores monitorados estão a devolução do bônus de Itaipu, efeitos sazonais e possíveis impactos do El Niño sobre os preços dos alimentos.
Nos vencimentos mais curtos, as expectativas para a trajetória da Selic também ajudam a explicar o recuo das taxas.
A Tivio considera possível a realização de até dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros ainda neste ano, caso os indicadores de inflação continuem apresentando comportamento favorável.
Essa expectativa aumenta o interesse por títulos de curto e médio prazo, mas não elimina os riscos relacionados à inflação e ao cenário fiscal.
Depois de meses de demanda mais fraca nos leilões do Tesouro Nacional, o mercado começou a apresentar sinais de recuperação.
Até julho, o Tesouro havia reduzido o volume ofertado em alguns leilões para evitar pressionar ainda mais as taxas das NTN-Bs. Com a melhora das condições, as colocações começaram a aumentar gradualmente.
Na semana anterior, o mercado registrou o segundo maior leilão de prefixados do ano.
Parte dessa melhora também está relacionada à maior liquidez após o vencimento de aproximadamente R$ 257 bilhões da NTN-B 2026, além da estratégia do governo de calibrar as emissões para evitar pressão excessiva sobre as taxas.
Apesar do retorno do investidor estrangeiro à Bolsa brasileira, os gestores não identificam o mesmo movimento no mercado de renda fixa.
A percepção é de que investidores institucionais, como fundos de pensão, já realizaram boa parte do processo de ajuste entre ativos e passivos, reduzindo a demanda estrutural por títulos de longo prazo.
Para a Tivio, o comprador atual está mais pulverizado. Uma demanda estrutural mais forte seria esperada caso houvesse uma melhora mais consistente dos fundamentos econômicos.
O Relatório Mensal da Dívida deverá oferecer novas pistas sobre a participação estrangeira no mercado de juros, especialmente por meio da demanda pelas NTN-Fs, títulos prefixados com juros semestrais que costumam atrair investidores globais.
Na avaliação dos gestores, o investidor estrangeiro está menos preocupado especificamente com quem vencerá a eleição e mais atento à capacidade do próximo governo de enfrentar a deterioração fiscal.
A sinalização de um eventual ajuste fiscal após as eleições poderá ser mais importante para os preços dos ativos do que o resultado eleitoral isoladamente.
Por isso, a expectativa é de forte volatilidade no mercado de juros após a eleição, principalmente até que o novo governo apresente medidas concretas para as contas públicas.
O cenário combina redução do prêmio eleitoral, expectativas de cortes da Selic e melhora pontual da demanda por títulos, mas ainda enfrenta riscos relevantes relacionados à inflação e às contas públicas.
Com as taxas já tendo recuado significativamente, gestores avaliam que o espaço para novas quedas pode ser limitado.
O comportamento dos juros nos próximos meses deverá depender cada vez mais de três fatores: resultado das eleições, trajetória da inflação e credibilidade do ajuste fiscal.
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