Análise aponta que a FIFA Forward Enterprise poderia alcançar valor próximo de US$ 60 bilhões, levantando questionamentos sobre a estratégia de valuation e a venda de participação a investidores privados.
A tentativa da FIFA de criar a FIFA Forward Enterprise (FFE), uma estrutura destinada a concentrar direitos comerciais da entidade e atrair investidores privados, abriu uma discussão que vai além da governança do futebol mundial: quanto realmente vale o principal ativo esportivo da entidade?
O projeto previa uma avaliação de aproximadamente US$ 20 bilhões para a nova empresa, mas análises de especialistas em investimentos e private equity indicaram que o valor econômico potencial poderia ser significativamente maior.
Um dos estudos citados estima que a FFE poderia alcançar uma avaliação próxima de US$ 60 bilhões, o que representaria aproximadamente três vezes o valor considerado na proposta original.
A divergência coloca em evidência a dificuldade de atribuir preço a uma propriedade esportiva global que combina direitos de mídia, patrocínios, marca, competições e uma audiência distribuída por praticamente todos os mercados do mundo.
A proposta associada à FIFA Forward Enterprise previa a entrada de capital privado na estrutura comercial da entidade.
O projeto contemplava um pagamento inicial de aproximadamente US$ 20 milhões para cada uma das 211 associações-membro da FIFA, totalizando cerca de US$ 4,2 bilhões.
As associações poderiam ainda acessar recursos adicionais por meio da venda de participações minoritárias a investidores de longo prazo.
A estrutura, entretanto, acabou não avançando, enquanto a discussão sobre seu valuation ganhou relevância entre analistas do mercado esportivo.
Um dos argumentos utilizados para questionar a avaliação de US$ 20 bilhões é o crescimento da receita da entidade.
No ciclo de 2019 a 2022, que incluiu a Copa do Mundo do Catar, a FIFA registrou aproximadamente US$ 7,6 bilhões em receitas.
Para o ciclo de 2023 a 2026, a projeção chega a aproximadamente US$ 15 bilhões, praticamente o dobro do período anterior.
A receita está concentrada principalmente em três grandes propriedades:
Esse crescimento é considerado relevante para uma análise de valuation porque ativos com expansão significativa de receita podem receber múltiplos superiores.
Considerando a receita projetada pela FIFA, a avaliação de US$ 20 bilhões representaria um múltiplo de aproximadamente 5,3 vezes a receita.
Embora indicadores como EBITDA e lucro sejam normalmente preferidos em avaliações empresariais, o mercado esportivo frequentemente utiliza múltiplos de receita devido às características particulares dessas propriedades.
A comparação com outros ativos esportivos também mostra que grandes marcas globais podem alcançar avaliações superiores.
Transações envolvendo ligas, competições e propriedades esportivas relevantes apresentaram múltiplos de receita acima daquele implícito na proposta da FIFA.
Isso não significa, porém, que os ativos sejam diretamente comparáveis. Cada propriedade possui diferentes níveis de crescimento, previsibilidade de receita, custos, direitos comerciais e exposição a riscos.
A estrutura econômica da FIFA apresenta uma característica particular: grande parte de sua receita está concentrada em eventos realizados em ciclos de quatro anos.
A Copa do Mundo é o principal exemplo.
Esse modelo torna a geração de receita menos recorrente do que aquela observada em clubes e ligas que disputam partidas durante todo o ano.
Ao mesmo tempo, a escassez do principal evento da FIFA pode aumentar seu valor comercial.
A Copa do Mundo reúne uma audiência global, patrocinadores internacionais e direitos de transmissão em uma propriedade que possui poucos equivalentes no mercado.
Diferentemente de clubes de futebol, a FIFA possui relativamente poucos ativos físicos relevantes.
Seu principal patrimônio econômico está relacionado à marca, direitos comerciais, direitos de transmissão e capacidade institucional de organizar competições globais.
Essa característica torna o valuation mais dependente da capacidade de monetizar audiência e propriedade intelectual.
O modelo também apresenta uma estrutura de custos diferente da observada em clubes. Os países-sede assumem grande parte dos investimentos relacionados à infraestrutura necessária para a realização dos torneios.
A FIFA concentra custos principalmente na organização das competições, operações e premiações.
Transações recentes ajudam a estabelecer referências para o mercado.
Operações envolvendo a LaLiga, o PGA Tour e a Fórmula 1 demonstram que investidores estão dispostos a atribuir múltiplos elevados a propriedades esportivas com marcas globais e receitas relevantes.
A comparação, entretanto, precisa considerar as diferenças entre cada negócio.
A Fórmula 1, por exemplo, possui calendário anual e maior previsibilidade de receitas. A FIFA depende fortemente de eventos específicos, especialmente da Copa do Mundo.
Mesmo assim, a diferença entre os múltiplos pode alimentar o argumento de que a avaliação proposta para a FIFA Forward Enterprise teria sido conservadora.
A discussão também evidencia a diferença entre FIFA e UEFA.
Enquanto a FIFA controla a Copa do Mundo e outras competições internacionais, a UEFA está diretamente ligada ao mercado europeu de clubes, incluindo competições como a Champions League.
Dados financeiros citados na análise mostram que a UEFA apresentou receitas superiores às da FIFA em determinados períodos recentes.
Por outro lado, a FIFA mantém uma posição financeira robusta, com reservas acumuladas que poderiam crescer significativamente após a Copa do Mundo de 2026.
Essa capacidade financeira levanta uma questão estratégica: até que ponto a entidade precisa recorrer a investidores privados para financiar projetos comerciais de longo prazo?
O caso da FIFA Forward Enterprise representa uma discussão maior sobre a transformação do esporte em uma classe de ativos.
Investidores privados demonstram interesse crescente por direitos esportivos porque essas propriedades combinam audiência, escassez, propriedade intelectual e capacidade de geração de receitas.
Para as entidades esportivas, a entrada de capital pode acelerar investimentos e ampliar a capacidade de expansão.
Por outro lado, a venda de participações significa compartilhar parte do valor econômico futuro com investidores externos.
No caso da FIFA, a discussão ganha ainda mais peso porque a entidade controla uma das marcas esportivas mais reconhecidas do mundo.
O principal desafio está em determinar quanto vale uma propriedade cuja força não depende apenas de indicadores financeiros.
A relação dos torcedores com a Copa do Mundo envolve elementos como identidade, tradição, pertencimento e relevância cultural.
Esses fatores não aparecem diretamente em balanços patrimoniais, mas podem contribuir para sustentar a demanda por direitos de transmissão, patrocínios e produtos relacionados ao evento.
Por isso, o valuation da FIFA exige mais do que simplesmente aplicar um múltiplo sobre a receita atual.
É necessário considerar também o crescimento esperado, a capacidade de monetização, a previsibilidade dos fluxos financeiros e a força global da marca.
A tentativa frustrada de estruturar a FIFA Forward Enterprise mostra como o mercado esportivo está cada vez mais próximo do universo financeiro.
Clubes, ligas e entidades esportivas passaram a ser avaliados como propriedades capazes de gerar receitas recorrentes por meio de direitos de mídia, patrocínios, plataformas digitais e exploração de marcas.
Nesse contexto, o caso da FIFA representa um dos exemplos mais relevantes da disputa entre capital privado, governança e valor econômico do esporte.
Mais do que discutir se US$ 20 bilhões foi um preço baixo ou adequado, o episódio evidencia a dificuldade de transformar uma propriedade esportiva única em um ativo financeiro com preço objetivo.
A questão central permanece: quanto vale uma marca global capaz de reunir bilhões de pessoas em torno de um único evento esportivo?
Para investidores e para a própria FIFA, encontrar essa resposta pode ser tão importante quanto definir quem terá participação nos negócios futuros da entidade.
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