Ibovespa recua mais de 2% nesta terça-feira, pressionado por sinais de saída de capital estrangeiro, incertezas fiscais, eleições e tensão no Oriente Médio; JPMorgan reduz recomendação para ações brasileiras.
O Ibovespa intensificou a queda nesta terça-feira (11) e voltou a operar abaixo dos 170 mil pontos, em uma sessão marcada pela maior aversão ao risco dos investidores e por sinais de saída de capital estrangeiro da Bolsa brasileira.
Após abrir praticamente estável, aos 172.180 pontos, o principal índice da B3 chegou a subir 0,12%, atingindo máxima de 172.385 pontos. O movimento, porém, perdeu força ao longo da manhã.
Às 14h15, o Ibovespa recuava 2,45%, aos 167.975 pontos, próximo das mínimas do dia.
O movimento ocorre mesmo com boa parte dos principais índices de Wall Street apresentando comportamento mais próximo da estabilidade, indicando que fatores domésticos também estão pesando sobre os ativos brasileiros.
Um dos principais pontos de atenção para o mercado é o fluxo de investidores estrangeiros.
Somente na última semana, os investidores estrangeiros retiraram aproximadamente R$ 5,55 bilhões da B3, segundo os dados repercutidos pelo mercado.
A saída de recursos tende a aumentar a pressão sobre as ações de maior peso no Ibovespa, especialmente empresas ligadas a commodities, bancos e petróleo.
Para os investidores, o movimento também reforça a percepção de que o mercado brasileiro pode estar perdendo atratividade diante de um ambiente de maior incerteza econômica e política.
O cenário também foi agravado pela avaliação do JPMorgan, que reduziu sua recomendação para as ações brasileiras de uma posição mais otimista para neutra dentro da América Latina.
Segundo os estrategistas do banco, o Brasil enfrenta uma combinação de fatores negativos, incluindo:
O banco também reduziu sua projeção para o Ibovespa no final de 2026.
A estimativa passou de 190 mil para 185 mil pontos.
Apesar do corte, o JPMorgan ainda identifica oportunidades específicas em empresas brasileiras, principalmente entre companhias mais expostas ao mercado externo.
No ambiente doméstico, investidores repercutem a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
Na semana passada, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo.
Apesar da redução, a ata reforçou que a política monetária continuará restritiva e que o ritmo de novos cortes dependerá da evolução do cenário econômico.
O Banco Central destacou que o balanço de riscos para a inflação continua com assimetria altista.
A autoridade monetária também avaliou que a atividade econômica segue em trajetória de moderação, conforme antecipado nas comunicações anteriores.
Para a Warren Investimentos, a ata apresentou um tom mais duro e reforçou a sinalização de que os juros deverão permanecer em níveis elevados por mais tempo.
Outro fator acompanhado pelos investidores foi a divulgação do IPCA de julho.
A inflação oficial brasileira avançou 0,07% no mês, acima da mediana de 0,03% esperada pelo mercado.
No acumulado de 12 meses, o IPCA atingiu 4,44%, também acima da expectativa de 4,40%.
Apesar da surpresa, a diferença em relação às projeções foi considerada pequena por alguns analistas.
A avaliação predominante é de que o resultado, isoladamente, não deve alterar de forma significativa as próximas decisões do Banco Central.
O foco permanece sobre a trajetória da inflação, atividade econômica, expectativas e possíveis efeitos dos cortes de juros já realizados.
O ambiente político também contribuiu para a volatilidade dos ativos brasileiros.
Uma pesquisa CNT/MDA divulgada nesta terça-feira mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro.
O levantamento apontou 48% das intenções de voto para Lula e 39,1% para Flávio Bolsonaro nesse cenário.
A proximidade das eleições presidenciais aumenta a sensibilidade dos investidores às pesquisas e às perspectivas para a política econômica do próximo governo.
Para o mercado, questões relacionadas à política fiscal, controle de gastos e trajetória da dívida pública podem ganhar ainda mais importância durante o período eleitoral.
No cenário internacional, o principal foco continua sendo o impasse entre Estados Unidos e Irã.
As negociações envolvendo um possível acordo de paz e a reabertura do Estreito de Ormuz seguem no radar dos investidores.
A região é estratégica para o mercado global de energia, já que uma parcela relevante do petróleo transportado mundialmente passa pela rota.
A tensão contribuiu para manter os preços do petróleo elevados.
O Brent, que chegou a registrar fortes ganhos recentemente, recuava 0,74% durante a tarde, negociado próximo de US$ 87,07 por barril, diante de sinais de avanço nas conversas envolvendo a navegação pelo Estreito de Ormuz.
Entre as principais ações do Ibovespa, os papéis ligados a commodities também contribuíam para a queda.
A Vale (VALE3) recuava durante a sessão, apesar da alta do minério de ferro em Dalian.
Já a Petrobras (PETR4) também operava em baixa, acompanhando o movimento de cautela do mercado.
Entre os bancos, o desempenho era misto, com destaque positivo para as units do Santander (SANB11), enquanto outras instituições financeiras pressionavam o índice.
A composição do Ibovespa faz com que movimentos nas grandes empresas de commodities e nos bancos tenham impacto significativo sobre o desempenho geral da Bolsa.
A temporada de resultados do segundo trimestre também movimenta os negócios nesta terça-feira.
O BTG Pactual (BPAC11) apresentou crescimento de 23% no lucro líquido ajustado na comparação anual.
A Caixa Seguridade (CXSE3) registrou alta de 9,5% no lucro recorrente, embora o resultado tenha ficado ligeiramente abaixo das expectativas.
Já a Natura (NATU3) apresentou forte queda no lucro líquido, mas suas ações reagiam positivamente durante a sessão após o balanço ser considerado melhor do que os temores mais pessimistas do mercado.
O desempenho desta terça-feira reforça um cenário de maior volatilidade para os ativos brasileiros.
De um lado, a Bolsa ainda conta com empresas negociadas a múltiplos considerados atrativos por parte dos investidores e oportunidades específicas em setores exportadores.
Por outro, o mercado precisa lidar com uma combinação de juros elevados, inflação acima das expectativas, incerteza fiscal, eleições, saída de capital estrangeiro e riscos geopolíticos.
A perda dos 170 mil pontos coloca o comportamento do Ibovespa nos próximos pregões ainda mais no radar dos investidores.
Enquanto o mercado acompanha os próximos dados econômicos e os desdobramentos da corrida eleitoral, o fluxo estrangeiro e a trajetória dos juros devem continuar entre os principais fatores capazes de definir o rumo da Bolsa brasileira.
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