Alta dos Treasuries de longo prazo e aumento das emissões de dívida das big techs elevam o custo do dinheiro no mercado global e limitam espaço para cortes da Selic
O risco fiscal brasileiro é frequentemente apontado como o principal responsável pelo elevado nível dos juros reais no país. No entanto, movimentos recentes no mercado internacional mostram que o cenário externo também exerce influência significativa sobre a curva de juros brasileira.
Um dos principais fatores é a alta dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, especialmente os de longo prazo. A taxa dos Treasuries de 30 anos atingiu recentemente o maior nível desde 2007 e permaneceu elevada mesmo após medidas anunciadas pelo governo americano para tentar conter a pressão.
Para o estrategista de renda fixa Lucas Queiroz, o cenário externo passou a ter papel cada vez mais relevante na formação das taxas longas brasileiras. Segundo sua análise, o funding externo foi o componente dominante na variação do DI de cinco anos ao longo de 2026.
A elevação dos juros nos Estados Unidos tem impacto direto sobre o custo de financiamento em outros países. Isso acontece porque os Treasuries funcionam como uma das principais referências para a precificação de ativos financeiros no mundo.
Desde 2021, quando os juros americanos começaram a sair de níveis próximos de zero, o custo de financiamento global aumentou significativamente.
No Brasil, esse movimento se soma ao prêmio exigido pelos investidores para assumir riscos relacionados à liquidez e à conversibilidade dos investimentos. Esse componente também avançou nos últimos anos.
Segundo Queiroz, a combinação desses fatores ajuda a explicar boa parte da alta observada nas taxas longas brasileiras, enquanto o componente fiscal teria participação menor do que normalmente atribuído pelo mercado.
Outro elemento que ganhou importância é o forte crescimento dos investimentos em inteligência artificial.
Empresas como Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft e Oracle estão ampliando os investimentos em data centers e infraestrutura necessária para sustentar seus projetos de IA. Parte desses investimentos vem sendo financiada por meio da emissão de dívida.
As cinco companhias, que entre 2020 e 2024 registravam média anual de aproximadamente US$ 35 bilhões em emissões de bonds, chegaram a US$ 94 bilhões em 2025.
Nos primeiros sete meses de 2026, o volume já alcançou US$ 132 bilhões, segundo cálculos da Vanguard.
O aumento da demanda por capital ocorre justamente em um momento em que o próprio governo americano também precisa captar recursos para financiar seu elevado déficit.
Quando empresas e governo aumentam simultaneamente a procura por recursos, a competição pelo capital tende a crescer. Para atrair investidores, emissores podem precisar oferecer retornos maiores.
Felipe Davila, analista da MAG Investimentos, avalia que as emissões das companhias de tecnologia, embora não substituam os Treasuries, contribuem para elevar o retorno exigido pelos investidores em títulos de prazo mais longo.
O financiamento relacionado à inteligência artificial já representa uma parcela relevante das emissões de dívida corporativa de grau de investimento nos Estados Unidos.
Para gestores e analistas, o crescimento do investimento em IA pode manter essa pressão caso as empresas continuem recorrendo ao mercado de dívida para financiar a expansão de sua infraestrutura.
Apesar da influência do cenário externo, o quadro fiscal brasileiro permanece como uma preocupação importante para investidores.
Parte do mercado considera o déficit público e a trajetória da dívida brasileira como os principais fatores por trás do elevado prêmio exigido nos títulos de longo prazo.
O gestor de renda fixa Igor Campos, da Armor Capital, considera o fiscal a principal preocupação para a trajetória dos juros brasileiros.
A diferença de avaliação está principalmente no peso atribuído a cada fator. Enquanto alguns especialistas consideram o fiscal determinante, outros apontam que as condições externas exercem influência mais direta sobre a ponta longa da curva.
A combinação entre juros elevados nos Estados Unidos, maior necessidade de financiamento das empresas de tecnologia e preocupações fiscais cria um ambiente mais desafiador para a política monetária brasileira.
Com a curva longa pressionada, cortes mais agressivos da Selic podem provocar impactos relevantes sobre as taxas futuras e sobre o câmbio.
Para Lucas Queiroz, o Banco Central precisa considerar esse ambiente ao avaliar novos cortes de juros. A pressão externa pode limitar o espaço para uma redução mais rápida da Selic, mesmo diante de eventual melhora dos indicadores domésticos.
Assim, o comportamento dos juros brasileiros não depende apenas das contas públicas nacionais. Treasuries, fluxo internacional de capitais, emissão de dívida das big techs e investimentos em inteligência artificial também passaram a ocupar um papel relevante na formação das taxas brasileiras.
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